
Em 1725, foi encontrada uma imagem de Jesus Cristo, às margens do rio Tietê. De madeira, com 1,78 m, o "presente" do rio poderia ter sido levado para o município de Santana do Parnaíba, próximo ao local. Um carro de boi chegou a ser oferecido por um fazendeiro da região, mas um atoleiro impediu o transporte.
É importante lembrar que, na época, a escravidão ainda vigorava no Brasil. Por isso, três escravos negros foram os encarregados de realizarem a locomoção da imagem. Atolados, permaneceram por horas tentando encontrar uma solução para saírem da situação em que se encontravam. Foi quando um deles sugeriu que fizessem uma mudança na disposição dos eixos do carro, e tudo se resolveu.
Nesse momento, concretizava-se o primeiro milagre de Bom Jesus. Não porque os escravos haviam conseguido desencalhar o carro, mas porque aquele que dera a ideia da mudança dos eixos, até então, era surdo-mudo.
Maravilhados com o que acabavam de presenciar, os três interpretaram que o local onde haviam atolado seria santificado, e que seria vontade da imagem permanecer ali. Com isso, o ponto onde o objeto fora encontrado, apelidado de "Beco do Rio do Santo", foi marcado com uma cruz e passou a receber romeiros atraídos pelos poderes milagrosos da estátua. Onde os escravos haviam atolado foi construída uma capela.
Futuramente, com o aumento expressivo do número de fiéis que íam à Pirapora, a cidade tornou-se um grande centro religioso, especialmente durante a festa de Bom Jesus de Pirapora, realizada entre os dias 3 e 6 de agosto, o que fez com que a capela fosse substituída por uma igreja.
Assim como muitas festas religiosas, essa também acabou tornando-se uma grande manifestação cultural, quando, entre rezas, romarias, pagamento de promessas e penitências, pessoas de várias regiões, classes sociais e etnias, interagiam, dando lugar a atividades que íam além das obrigações religiosas.
Principalmente após a amenização da escravatura e da sua abolição, em 1888, Pirapora cresceu muito no que se refere à pluralidade humana que frequentava os festejos. Além disso, os afro-descendentes, levados pelo primeiro milagre de Bom Jesus, adotaram-no como o seu protetor.
Com a presença maciça de negros, a fé cristã das peregrinações a Pirapora foi, aos poucos, misturando-se com a cultura africana. Graças a isso, as homenagens a Bom Jesus tornaram-se um importante evento musical, parecido com as festas de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro, onde o samba carioca começou a ser desenhado.
Sambistas vindos de várias regiões do estado, pertencentes a diferentes vertentes do samba passaram a se encontrar em Pirapora e, com os seus bumbos, influenciaram significativamente no desenvolvimento do samba paulista.

