sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O surgimento de Pirapora como centro religioso e cultural


Em 1725, foi encontrada uma imagem de Jesus Cristo, às margens do rio Tietê. De madeira, com 1,78 m, o "presente" do rio poderia ter sido levado para o município de Santana do Parnaíba, próximo ao local. Um carro de boi chegou a ser oferecido por um fazendeiro da região, mas um atoleiro impediu o transporte.

É importante lembrar que, na época, a escravidão ainda vigorava no Brasil. Por isso, três escravos negros foram os encarregados de realizarem a locomoção da imagem. Atolados, permaneceram por horas tentando encontrar uma solução para saírem da situação em que se encontravam. Foi quando um deles sugeriu que fizessem uma mudança na disposição dos eixos do carro, e tudo se resolveu.

Nesse momento, concretizava-se o primeiro milagre de Bom Jesus. Não porque os escravos haviam conseguido desencalhar o carro, mas porque aquele que dera a ideia da mudança dos eixos, até então, era surdo-mudo.

Maravilhados com o que acabavam de presenciar, os três interpretaram que o local onde haviam atolado seria santificado, e que seria vontade da imagem permanecer ali. Com isso, o ponto onde o objeto fora encontrado, apelidado de "Beco do Rio do Santo", foi marcado com uma cruz e passou a receber romeiros atraídos pelos poderes milagrosos da estátua. Onde os escravos haviam atolado foi construída uma capela.

Futuramente, com o aumento expressivo do número de fiéis que íam à Pirapora, a cidade tornou-se um grande centro religioso, especialmente durante a festa de Bom Jesus de Pirapora, realizada entre os dias 3 e 6 de agosto, o que fez com que a capela fosse substituída por uma igreja.

Assim como muitas festas religiosas, essa também acabou tornando-se uma grande manifestação cultural, quando, entre rezas, romarias, pagamento de promessas e penitências, pessoas de várias regiões, classes sociais e etnias, interagiam, dando lugar a atividades que íam além das obrigações religiosas.

Principalmente após a amenização da escravatura e da sua abolição, em 1888, Pirapora cresceu muito no que se refere à pluralidade humana que frequentava os festejos. Além disso, os afro-descendentes, levados pelo primeiro milagre de Bom Jesus, adotaram-no como o seu protetor.

Com a presença maciça de negros, a fé cristã das peregrinações a Pirapora foi, aos poucos, misturando-se com a cultura africana. Graças a isso, as homenagens a Bom Jesus tornaram-se um importante evento musical, parecido com as festas de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro, onde o samba carioca começou a ser desenhado.

Sambistas vindos de várias regiões do estado, pertencentes a diferentes vertentes do samba passaram a se encontrar em Pirapora e, com os seus bumbos, influenciaram significativamente no desenvolvimento do samba paulista.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sesc encerra Comunas do Samba

Reunindo sambistas e membros de comunidades periféricas paulistas, o projeto Comunas do Samba realizará os seus dois últimos shows na próxima sexta-feira (29) e sábado (30), com o encontro do Kolombolo Diá Piratininga com Thobias da Vai-Vai, e do Passado de Glória com Wilson Moreira. Nas duas datas, os eventos acontecerão a partir das 21h, na choperia do Sesc Pompéia.

Nas palavras dos responsáveis pelo Comunas do Samba: "Nos últimos 10 anos, São Paulo assiste ao surgimento de várias comunidades de samba, a maioria localizada na periferia de São Paulo. Essas comunidades têm em comum a preocupação com a preservação do samba de raiz e se diferenciam na abordagem do tema, inovando e tornando o samba vivo e presente no cotidiano de cada região. Comunas do Samba apresenta ao público as particularidades do samba paulista, principalmente, o valor de comunhão, a união e a confraternização das comunidades".

O projeto que foi realizado durante este mês de janeiro já recebeu no palco da choperia do Sesc Pompéia: o Projeto Samba Autêntico (Rua do Samba) e Virgínia Rosa; as Tias Baianas Paulistas e D. Inah; o Samba da Laje e Serginho Meriti; o Pagode do Cafofo e Maurílio de Oliveira; a Roda de Samba Ouro Verde e Nelson Sargento; e o Núcleo de Samba Cupinzeiro e Amélia Rabelo.

A censura para os shows é de 18 anos. O ingresso varia de R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$ 8,00 (usuário matriculado no Sesc e dependentes, maiores de 60anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante) e R$ 16,00 (inteira).

Serviço:
Sesc - Pompéia
Rua Clélia - 93
Telefone: (11) 3871-7700

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Do samba-rural aos bumbos de Pirapora


Durante os anos 1930, apesar da influência exercida pelo samba carioca naquilo que se fazia em São Paulo, ainda existia certa divisão de espaço com o samba produzido na terra da garoa, com destaque para a produção do caipira Raul Torres.

Uma das músicas de maior sucesso na época foi "A cuíca está roncando" que, em 1935, causou alarde no carnaval paulistano e, em 1962, voltou a ser gravada pelo gaúcho Caco Velho. Além desse, outro samba paulista que fez sucesso nos anos 1930 foi "Bambas da Barra Funda", gravada por Januário França. O compositor desta obra era Henrique Costa - quem provavelmente tornou-se o saudoso Henricão, um dos principais nomes das raízes do samba da paulicéia.

Bastante diferentes entre si e daquilo que se fazia no Rio de Janeiro, os sambas paulistas da época possuíam em comum a sua base harmônica e rítmica, a qual era calcada em melodias de violões e violas caipiras. Diferentemente do que se observa atualmente, nesse período, era rara a utilização de instrumentos de percussão no samba.

Posteriormente, mesmo com a falta de características em comum, as manifestações populares paulistas foram classificadas no mesmo balaio como "samba-rural", denominação que não vingou por muito tempo.

Na verdade, "samba", em São Paulo, passou a ser entendido como sendo o "samba-de-bumbo" da popular festa de Bom Jesus de Pirapora. Contudo, o surgimento do samba não acontece nessa manifestação, uma vez que já existia o ritmo na maioria das cidades do estado antes da comemoração ganhar corpo.

A importância de Pirapora reside no fato de que, lá, reuniam-se diversos tipos de samba, devido à presença maciça de romeiros ligados ao ritmo. Essa junção também era possível, pois, na época, as pessoas eram mais religiosas do que atualmente, o que garantia a presença de muitos dos grandes nomes do samba paulista nesse tipo de comemoração.

Para as festividades íam batuqueiros de diversos tipos de samba como a Folia de Reis, a Festa do Divino, Cana Verde, e, principalmente, Congada, estilo muito rico em São Paulo. Mesmo com a presença de batuqueiros, na festa, fazia-se muita moda de viola, devido a forte presença de pessoas de Campinas, onde essa forma musical era comum.

Ainda que houvesse a convergência das várias vertentes do samba para Pirapora, por conta da característica religiosa da comemoração, algumas formas não eram aceitas pelos padres responsáveis, como, por exemplo, o jongo, a macumba e o candomblé. Contudo, muitos jongueiros participavam do evento.

Portanto, Pirapora influenciou o samba urbano com os seus bumbos e com a mistura dos estilos de se fazer o ritmo.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Quinteto em Branco e Preto canta João Nogueira

Na próxima quinta-feira (28), a partir das 20h, o Quinteto em Branco e Preto irá se apresentar no bar "Você vai se quiser", próximo à Praça Roosevelt, em São Paulo, realizando uma homenagem a João Nogueira.

Entre os sucessos que devem fazer parte do repertório da noite, com certeza, estarão "Espelho", "Pimenta no vatapá" e "Nó na madeira", entre outros.

Surgido em 1997, o conjunto é formado por músicos e cantores da periferia paulista, com ativa participação em comunidades de samba como o "Samba da Vela" e o "Reduto de São Mateus".

Além da presença dos integrantes do Quinteto em Branco e Preto, deverá estar no local da apresentação o sambista e compositor Paquera, um dos fundadores do "Samba da Vela", e proprietário do bar onde acontecerá o show.

Serviço:
Você vai se quiser
Endereço: Rua João Guimarães Rosa, 241 - Consolação (próximo à Praça Roosevelt)
Telefone: (11) 3129-4550

Significado de "samba" em São Paulo

A consagração nacional do samba carioca aconteceu nos anos 1930. Porém, antes disso, o termo "samba" não se referia a um gênero musical específico, e sim, apenas a diversões populares em que se tocava música, especialmente com ligação à cultura africana.

Com uma população majoritariamente interiorana, em São Paulo, chamava-se de "samba" uma parcela das cantorias festivas da época, principalmente, aquelas em que houvesse maciça e ativa paticipação de negros. Essas comemorações também recebiam o nome de "batuques". Apesar disso e de haver algumas qualificações do folclore regional (samba-lenço, samba-de-umbigada, etc), essas manifestações não apresentavam padrão musical.

A provável primeira aparição do termo "samba", em São Paulo, ocorreu em uma ata da Cãmara Municipal de Avaré, em 1889. A maneira como utiliza-se a palavra deixa clara a vagueza de significado que ela possuía no período: "Não me consta que houvesse jogo de búzio e cateretê ou fandango em outras casas, nas quais apenas fizeram tocatas, que são divertimentos próprios da Noite de Natal, havendo nos quartos do capitão Gabriel um divertimento denominado samba, o qual não me pareceu proibido pelas posturas" (retirado do Dicionário Musical Brasileiro, de Mário de Andrade).

Em 1917, houve a apresentação da música "Pelo telefone", assinada por Donga e Mauro de Almeida, mas criada em conjunto pelos frequentadores das tradicionais rodas da casa da Tia Ciata. Essa canção marcou a inédita exposição do samba para o grande público do Rio de Janeiro, mas não teve efeitos tão impactantes em São Paulo. Na terra da garoa, o que estava em alta era o, hoje, chamado samba "amaxixado", com destaque para as obras do compositor e pianista Sinhô. Esse estilo prevaleceu até o fim dos anos 1920.

O sentido específico da palavra "samba" só começou a firmar-se em São Paulo nos anos 1930, graças à reformulação rítmica elaborada nas escolas de samba cariocas, principalmente, a realizada pela pioneira "Deixa Falar", do Estácio de Sá, surgida em 1928.

As alterações sugeridas conseguiram chegar aos demais cantos do Brasil devido ao rádio e aos discos de gravação elétrica. É a partir daí que o Rio de Janeiro passa a gozar de uma "majestade" no samba que prevalece até hoje e que, por vezes, é descabida.